Quando o pediatra geral deve encaminhar ao uropediatra? Guia prático para os pais

Quando o pediatra deve encaminhar ao urologista pediátrico?

Durante as consultas de rotina, o pediatra acompanha de perto o crescimento, o desenvolvimento e a saúde global da criança. Em algumas situações, esse olhar atento identifica a necessidade de uma avaliação especializada da saúde urinária e genital, momento em que o encaminhamento ao uropediatra — também chamado de urologista pediátrico ou urologista infantil — se torna fundamental.

Desde já, vale esclarecer: uropediatra, urologista pediátrico e urologista infantil são termos usados como sinônimos na prática clínica. Todos se referem ao médico especialista no cuidado urológico de bebês, crianças e adolescentes. 

Receber um encaminhamento pode gerar dúvidas nos pais, mas, na maioria das vezes, ele tem caráter preventivo e busca garantir diagnóstico correto, acompanhamento adequado e tranquilidade para a família.

A boa notícia é que, na prática, existem sinais bem claros que ajudam a entender quando o acompanhamento com o pediatra já é suficiente e quando vale envolver um especialista.

Ao longo deste artigo, você vai ver quais queixas e achados no exame físico costumam levar ao encaminhamento, o que é considerado normal em cada fase da infância e quais situações pedem avaliação mais rápida, para você conversar com o pediatra com mais segurança e sem ansiedade desnecessária.

O papel do pediatra e do urologista pediátrico no cuidado da criança

O pediatra é o profissional que acompanha a criança desde o nascimento, avaliando crescimento, desenvolvimento, alimentação, vacinação e intercorrências comuns da infância. Já o urologista pediátrico é responsável por investigar, diagnosticar e tratar alterações do trato urinário e genital, considerando as particularidades anatômicas e funcionais de cada fase do desenvolvimento infantil.

Esses profissionais atuam de forma complementar. O encaminhamento ao uropediatra não significa, necessariamente, um problema grave, mas sim a necessidade de um olhar especializado para garantir segurança e precisão na condução do caso.

O acompanhamento precoce de alterações urológicas reduz o risco de complicações futuras, preserva a função renal e melhora a qualidade de vida da criança.

Principais situações que justificam o encaminhamento ao urologista pediátrico

Alterações detectadas ainda na gestação

Com os avanços dos exames de imagem no pré-natal, muitas alterações do trato urinário do bebê são identificadas ainda durante a gravidez. A hidronefrose fetal — dilatação dos rins — é um dos achados mais frequentes.

Quando essa alteração é observada pelo ginecologista ou obstetra durante o ultrassom gestacional, o acompanhamento com o urologista infantil pode ser indicado ainda no pré-natal ou logo após o nascimento. Esse cuidado antecipado permite planejar exames, orientar a família e evitar intervenções desnecessárias. 

Se o seu ultrassom gestacional identificar alguma alteração nos rins do bebê é importante que saiba mais sobre hidronefrose

Infecção urinária em crianças

Infecções urinárias merecem atenção especial na infância, sobretudo quando ocorrem em bebês, apresentam febre ou se repetem com frequência. Nesses casos, o pediatra costuma encaminhar ao urologista pediátrico para investigação de possíveis causas anatômicas ou funcionais, como refluxo vesicoureteral ou dificuldades no esvaziamento da bexiga.f

O diagnóstico correto reduz o risco de cicatrizes renais e complicações a longo prazo¹.

Dificuldades para urinar ou alterações do jato urinário

Esforço excessivo para urinar, demora prolongada no banheiro ou jato urinário fraco e irregular são sinais que merecem atenção. A avaliação com o uropediatra ajuda a diferenciar alterações transitórias do desenvolvimento de condições que exigem acompanhamento especializado.

Xixi na cama persistente (enurese)

O xixi na cama é comum em crianças pequenas, mas quando persiste após os 5 anos ou vem acompanhado de escapes urinários diurnos, urgência miccional ou histórico de infecção urinária, o encaminhamento ao urologista pediátrico é indicado.

Alterações genitais que devem ser avaliadas pelo urologista pediátrico

Desenvolvimento do tamanho genital masculino

A avaliação do tamanho do pênis em meninos é uma das preocupações mais comuns entre os pais e um dos temas mais pesquisados atualmente. O crescimento genital ocorre de forma progressiva e está relacionado à idade, fase do desenvolvimento e estímulos hormonais normais da infância e da puberdade.

Na imensa maioria das vezes, o tamanho observado está dentro da normalidade. O termo micropênis refere-se a uma condição rara, com incidência muito baixa, caracterizada por medidas significativamente abaixo do esperado para a idade, avaliadas de forma técnica pelo urologista pediátrico. Por isso, a avaliação especializada é importante para orientar corretamente e tranquilizar a família, evitando diagnósticos equivocados.

Testículos que não desceram (criptorquidia)

A ausência de um ou ambos os testículos na bolsa escrotal é relativamente comum nos primeiros meses de vida. Quando a descida espontânea não ocorre até cerca de 6 meses, o acompanhamento com o urologista infantil é indicado.

A correção no momento adequado reduz riscos futuros relacionados à fertilidade e ao desenvolvimento testicular.

Hérnia inguinal

A hérnia inguinal é uma condição frequente na infância e pode se manifestar como um abaulamento na região da virilha ou no escroto, principalmente quando a criança chora ou faz esforço. Em alguns casos, a hérnia pode ser confundida com testículo não descido, já que o volume na região inguinal pode dificultar a palpação correta.

Por isso, a avaliação com o urologista pediátrico é fundamental para diferenciar essas condições e indicar o tratamento adequado no tempo correto.

Inchaço escrotal (hidrocele)

A hidrocele é caracterizada pelo acúmulo de líquido ao redor do testículo, levando ao aumento do volume escrotal. Em bebês e crianças pequenas, as hidroceles podem ser transitórias e se resolver espontaneamente.

No entanto, quando o inchaço persistir ou houver piora progressiva do abaulamento, isso pode gerar dúvida diagnóstica. O acompanhamento com o uropediatra é indicado para diferenciar a hidrocele simples da hidrocele comunicante, da hérnia inguinal e de outras alterações escrotais.

Fimose em meninos

A fimose fisiológica é esperada nos primeiros anos de vida e costuma se resolver espontaneamente. Quando há infecções locais recorrentes, infecção urinária, dor ou dificuldade para urinar, o pediatra pode encaminhar ao urologista pediátrico para avaliação e definição da melhor conduta para tratamento da fimose.

Fimose feminina (sinéquia dos pequenos lábios)

Nas meninas, a chamada “fimose feminina” corresponde à sinéquia dos pequenos lábios, uma fusão parcial ou total dos pequenos lábios da vulva. Geralmente é benigna e transitória, mas quando associada a infecções urinárias recorrentes ou dificuldade miccional, deve ser avaliada pelo urologista infantil para orientação adequada.

Malformações congênitas genitais

Alterações como hipospádia, curvaturas penianas acentuadas ou penis embutido devem ser avaliadas precocemente pelo urologista pediátrico, permitindo planejamento adequado do acompanhamento ou tratamento quando necessário.

Como o diagnóstico é feito na urologia pediátrica?

Na urologia pediátrica, o diagnóstico é construído de forma cuidadosa, progressiva e centrada na criança. O primeiro passo é sempre a escuta atenta dos pais e, quando possível, da própria criança, valorizando a história desde a gestação, o desenvolvimento, os hábitos urinários e o contexto familiar. Esses detalhes ajudam a diferenciar situações esperadas do crescimento infantil daquelas que realmente exigem investigação.

O exame físico minucioso tem papel fundamental e, muitas vezes, já esclarece a causa da queixa, orientando a conduta com segurança. Os exames complementares, como ultrassonografia, cintilografia renal, uretrocistografia, exames de urina e urofluxometria, são solicitados apenas quando há indicação clínica clara, com objetivos bem definidos.

O foco do uropediatra é integrar informações clínicas e exames², evitando excessos, respeitando o tempo de maturação do organismo infantil e reduzindo intervenções desnecessárias. Dessa forma, o diagnóstico se torna mais preciso, acolhedor e confiável, trazendo tranquilidade às famílias e direcionando o melhor cuidado para cada criança.

Quando o tratamento é necessário? E quais são as opções?

Nem toda alteração exige tratamento imediato. Muitos quadros são apenas acompanhados ao longo do tempo. Quando o tratamento é indicado, pode envolver orientações comportamentais, uso de medicamentos ou procedimentos cirúrgicos.

A urologia pediátrica evoluiu significativamente, com técnicas cada vez menos invasivas e recuperação mais rápida, trazendo mais conforto e segurança para as crianças e suas famílias.

Perguntas frequentes (FAQ)

Todo encaminhamento ao uropediatra significa cirurgia?
Não. A maioria dos casos envolve apenas acompanhamento e orientação.

Meu filho não sente dor. Mesmo assim precisa consultar o urologista pediátrico?
Sim. Algumas alterações não causam dor inicialmente, mas podem trazer consequências futuras.

Avaliar o tamanho genital dos meninos é realmente necessário?
Na maioria das vezes, a avaliação serve para tranquilizar os pais. O urologista pediátrico utiliza critérios técnicos e medidas adequadas à idade para diferenciar variações normais de condições raras, como o micropênis.

Meninas também precisam consultar urologista infantil?
Sim. Meninas podem apresentar alterações urinárias e genitais que se beneficiam do acompanhamento especializado.

Palavra da especialista

Como urologista pediátrica, acredito que informação clara e acolhedora transforma a experiência das famílias. Quando pediatra, ginecologista, obstetra e uropediatra atuam de forma integrada, conseguimos identificar precocemente alterações que, muitas vezes, têm solução simples e excelentes resultados. Meu compromisso é cuidar de cada criança com técnica, sensibilidade e respeito ao tempo da família.

Agende sua consulta

Se o pediatra, ginecologista ou obstetra do seu filho sugeriu uma avaliação com urologista pediátrico, ou se você identificou algum dos sinais descritos neste texto, estou à disposição para orientar com clareza e responsabilidade. Cuidar cedo é investir em saúde para toda a vida.

Referências

¹: Shaikh et al. Risk of renal scarring in children with a first urinary tract infection: a systematic review. Pediatrics. 2010 Dec;126(6):1084-91. doi: 10.1542/peds.2010-0685. Epub 2010 Nov 8. PMID: 21059720.

²: Sociedade Europeia de Urologia Pediátrica (ESPU). Guidelines on Pediatric Urology.
https://uroweb.org/topics/paediatric-urology.

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Publicado por: Dra. Marilyse Fernandes
Cirurgia Pediátrica (CRM 92676 | RQE 21334) A Dra Marilyse Fernandes é médica especialista em cirurgia pediátrica e robótica, dedicada à urologia infantil com experiência em hidronefrose congênita, malformações genitais e disfunções miccionais. Formada pela Universidade Estadual de Londrina, Doutora em Ciências da Reabilitação pela Universidade de São Paulo (USP) e Pós Graduada em Cirurgia Robótica pelo Hospital Israelita Albert Einstein.

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