Quando uma criança tem infecção urinária com febre, infecções de repetição ou uma alteração no ultrassom, muitas famílias chegam ao consultório com a mesma dúvida: qual exame detecta o refluxo vesicoureteral?
Essa pergunta é muito importante porque o refluxo vesicoureteral, ou RVU, nem sempre dá sintomas claros e nem sempre aparece em um exame simples.
Em alguns casos, ele só passa a ser investigado depois de uma infecção urinária febril. Em outros, a suspeita surge a partir de uma dilatação do trato urinário vista no ultrassom gestacional ou pós-natal.
Hoje, as diretrizes mais recentes reforçam uma abordagem seletiva e bem indicada, para identificar as crianças com maior risco de infecções febris recorrentes e lesão renal, sem submeter todas elas a exames invasivos desnecessários ¹ ².
A resposta para a dúvida sobre qual exame detecta o refluxo urinário pode ser curta: o exame mais importante para confirmar o refluxo vesicoureteral é a uretrocistografia miccional.
Mas não é tão simples, e a resposta completa exige entender o papel dos outros exames, porque cada um mostra uma parte diferente do problema e ajuda em um plano de acompanhamento mais preciso ¹ ³.
O que é o refluxo vesicoureteral?
O refluxo vesicoureteral é o retorno anormal da urina da bexiga para os ureteres e, em alguns casos, até os rins. Em vez de seguir apenas para fora do corpo durante a micção, parte da urina pode retornar no sentido contrário ¹ ⁴.
Isso não significa que toda criança com refluxo terá complicações. Existem casos leves, que podem melhorar com o crescimento, e existem casos que exigem acompanhamento mais próximo.
O que orienta a conduta é apenas a presença do refluxo somado a um conjunto de fatores clínicos, como¹ ⁴ ⁵:
- febre;
- repetição de infecção urinária;
- grau do refluxo;
- presença de alterações renais;
- associação com disfunção miccional e intestinal.
Para pais e responsáveis, o mais importante é saber que o diagnóstico correto ajuda a organizar um plano claro. Para pediatras e outros especialistas que acompanham crianças, vale reforçar que o RVU deve ser interpretado dentro do contexto clínico, e não como um achado isolado¹ ⁴.
Sintomas: quando suspeitar de refluxo urinário em crianças?
Nem sempre o refluxo vesicoureteral provoca sintomas específicos. Em muitos pacientes, a principal pista é a infecção urinária febril, sobretudo quando não há outro foco evidente para a febre ¹ ⁵ ⁶.
Os cenários que mais levantam suspeita são:
Infecção urinária com febre
Esse é um dos contextos mais clássicos de investigação, principalmente em bebês e crianças pequenas ¹ ⁵ ⁶.
Infecções urinárias de repetição
Quando os episódios se repetem, a avaliação do trato urinário ganha ainda mais importância ¹ ⁴.
Alterações no ultrassom
Dilatação do rim, do ureter ou alterações da bexiga podem indicar a necessidade de investigação complementar ² ³.
Sintomas miccionais em crianças maiores
Urgência para urinar, escapes, adiamento miccional, jato alterado, constipação e evacuações ressecadas merecem atenção. A associação entre refluxo vesicoureteral e disfunção vesical e intestinal é muito relevante, tanto para o risco de infecção quanto para a evolução do quadro ¹ ⁴ ⁵.
Aqui há um ponto útil para os colegas médicos: em crianças já desfraldadas, investigar hábitos intestinais, urgência, retenção urinária voluntária e escapes podem mudar a condução do caso. As diretrizes europeias e as revisões recentes reforçam que a presença de disfunção vesical e intestinal deve ser ativamente pesquisada e tratada ¹ ⁴.
Diagnóstico e classificação do RVU
Depois que o refluxo é identificado, é necessário entender qual é o grau e se ele está associado a outros fatores de risco ¹ ⁴.
Na prática, o RVU é classificado em graus de I a V:
- Grau I: refluxo limitado ao ureter;
- Grau II: refluxo que chega ao sistema coletor renal, sem dilatação;
- Grau III: refluxo com dilatação leve a moderada;
- Graus IV e V: refluxo mais importante, com maior dilatação e tortuosidade¹ ⁴.
Essa classificação ajuda a estimar a chance de resolução espontânea e necessidade de seguimento mais rigoroso. Ainda assim, o grau do refluxo não deve ser analisado sozinho. O histórico de febre, o padrão das infecções, a anatomia urinária, a função renal e a presença de disfunção miccional também influenciam as decisões ¹ ⁴ ⁵.
Quais exames são necessários para o diagnóstico do RVU?
O diagnóstico do refluxo vesicoureteral costuma ser construído com história clínica + exame físico + exames de imagem bem indicados. Entre eles, alguns são de triagem, outros confirmam o diagnóstico e outros têm papel mais específico no seguimento ¹ ³.
De forma prática:
- o ultrassom mostra a anatomia e possíveis sinais indiretos;
- a cistocintilografia pode ser útil em casos selecionados, sobretudo no seguimento;
- a uretrocistografia miccional confirma o refluxo e permite graduá-lo;
- a cistoscopia não é exame de rotina para diagnóstico inicial, mas sim um exame de investigação complementar ¹ ³.
1 – Ultrassonografia
A ultrassonografia de rins e vias urinárias geralmente é um dos primeiros exames solicitados. Ela é utilizada porque não usa radiação, é não invasiva e ajuda a avaliar a anatomia do trato urinário ² ³.
No ultrassom, podem ser observados achados como:
- dilatação do rim;
- dilatação do ureter;
- alteração do aspecto da bexiga;
- espessamento da parede vesical;
- resíduo urinário após micção;
- assimetrias renais ou outras malformações associadas ² ³.
Mas aqui está um ponto essencial: a ultrassonografia não é suficiente para diagnosticar refluxo vesicoureteral. Uma criança pode ter RVU e apresentar ultrassom normal ou pouco alterado. Por isso, um exame ultrassonográfico sem alterações não exclui sozinho o diagnóstico quando a história clínica levanta suspeita, principalmente nos casos de baixo grau ² ³.
2 – Cistocintilografia renal direta ou indireta
A cistocintilografia é um exame da medicina nuclear que pode ser útil em situações selecionadas. Em geral, é mais lembrada como ferramenta de seguimento do que como exame inicial principal para esclarecer toda a anatomia urinária ² ³.
Sua vantagem é poder reduzir a exposição à radiação em alguns cenários, mas sua limitação é oferecer menos detalhe anatômico da uretra e da bexiga do que a uretrocistografia miccional ² ³.
Na prática, ela pode ser útil quando já existe um diagnóstico conhecido e o objetivo é acompanhar a evolução. Porém, quando a questão é confirmar refluxo e entender com precisão o trato urinário inferior, a uretrocistografia costuma ter papel mais decisivo ² ³.
3 – Raio-X uretrocistografia miccional
A uretrocistografia miccional, também chamada de UCGM, VCUG ou MCU em publicações internacionais, é o exame mais importante para diagnosticar o refluxo vesicoureteral ¹ ³.
Esse exame permite observar se a urina volta da bexiga para os ureteres e rins durante o enchimento da bexiga e durante a micção. Ele mostra a anatomia da bexiga e da uretra e permite classificar o grau do refluxo ¹ ³.
De forma simplificada, ele é realizado assim:
- uma sonda fina é colocada na uretra;
- a bexiga é preenchida com contraste;
- imagens são obtidas durante o enchimento e enquanto a criança urina ² ³.
Por envolver passagem de cateter na uretra e radiação, é um exame mais invasivo do que a ultrassonografia. Mesmo assim, quando existe indicação correta, ele fornece informações detalhadas, confirmando ou afastando o diagnóstico de RVU ¹ ³.
Para os colegas que acompanham crianças com ITU, as diretrizes mais recentes caminham para uma solicitação mais criteriosa da UCGM, reservando o exame para situações em que ele realmente possa agregar ao raciocínio diagnóstico, como casos de infecção urinária febril recorrente, ultrassom alterado, maior risco clínico ou suspeita de anomalia do trato urinário inferior ¹ ⁵ ⁶.
4 – Cistoscopia
A cistoscopia não é um exame de rotina para descobrir refluxo vesicoureteral. Mas um item complementar em casos específicos. Trata-se de um procedimento endoscópico que permite visualizar a uretra e a bexiga por dentro. Ela pode ter papel em casos específicos, como: ¹ ⁴
- investigação complementar de alterações anatômicas;
- planejamento terapêutico;
- abordagem endoscópica em situações selecionadas.
Ou seja, embora seja um exame importante em determinados contextos, não costuma ser o primeiro exame quando a dúvida central é apenas confirmar ou afastar RVU.
Como se preparar para os exames?
Uma parte importante da consulta é preparar a família para o exame sem gerar medo desnecessário. A forma de preparo depende do método escolhido e do protocolo do serviço ² ³.
Na prática:
- o ultrassom costuma exigir preparo simples ou nenhum preparo específico;
- a uretrocistografia miccional pode ter orientações próprias do local onde será realizada;
- em exames com sonda, é importante explicar à criança, de maneira adequada com a idade, o que vai acontecer;
- a equipe pode orientar sobre jejum, medicações e cuidados após o exame, quando isso for necessário ² ³.
Do ponto de vista emocional, ajuda muito quando os pais chegam tranquilos e já tiveram uma conversa honesta com a criança. Em vez de prometer que “não vai acontecer nada”, costuma funcionar melhor dizer que é um exame rápido, feito por uma equipe acostumada a cuidar de crianças, e que o objetivo é entender melhor o que está acontecendo para definir o melhor tratamento.
Para os colegas que participam dessa jornada com a criança e sua família, esse acolhimento também é parte importante do cuidado: indicar o exame mais apropriado em cada fase da investigação e explicar com clareza por que ele está sendo solicitado costuma gerar mais confiança e melhor adesão ao seguimento.
Importância do diagnóstico precoce
O diagnóstico precoce não serve para alarmar. Ele serve para proteger o rim da criança e organizar o acompanhamento com mais segurança ¹ ⁴ ⁵.
Quando o refluxo vesicoureteral vem acompanhado de infecções urinárias febris de repetição, merece uma atenção mais próxima. Isso porque, em alguns contextos, pode haver maior risco de cicatriz renal.
Em situações específicas, especialmente nos quadros de maior gravidade ou de acompanhamento prolongado, também pode existir relação com alterações da pressão arterial, perda de proteína na urina e comprometimento da função renal ao longo do tempo ⁴ ⁵.
Ao mesmo tempo, é importante tranquilizar famílias e colegas: muitas crianças com refluxo vesicoureteral têm boa evolução. Nem todo caso traz complicações, e nem toda criança precisará de cirurgia.
O que costuma fazer mais diferença é um seguimento cuidadoso, com leitura adequada dos exames, tratamento oportuno das infecções quando elas acontecem e atenção à disfunção vesical e intestinal, que muitas vezes faz parte do quadro e impacta a evolução ¹ ⁴ ⁵.
O que diz a especialista
“Quando os pais escutam pela primeira vez o termo refluxo urinário, é natural que surjam medo, dúvidas e muita insegurança. Mas, na maior parte das vezes, o que a criança e a família mais precisam nesse momento é de orientação clara e de uma investigação bem conduzida.
É nesse contexto que entra de qual exame detecta o refluxo vesicoureteral mais adequado e posterior seguimento. Com a avaliação adequada, conseguimos entender se há de fato refluxo vesicoureteral, qual é sua repercussão, se existe risco para os rins e quais são os próximos passos mais apropriados para cada caso. Meu papel é ajudar a família a compreender o processo e se sentir amparada ao longo de toda essa jornada”.
- Dra. Marilyse Fernandes, Cirurgia Pediátrica (CRM 92676 | RQE 21334)
Papel do uropediatra: suporte especializado no processo de diagnóstico
O papel do uropediatra vai além de identificar qual exame detecta o refluxo vesicoureteral mais indicado e realizar a solicitação de exames. Esse acompanhamento especializado ajuda a integrar os achados clínicos e de imagem, definir quais investigações realmente agregam em cada etapa e conduzir o caso com equilíbrio, evitando excessos ou atrasos desnecessários na avaliação ¹ ⁴ .
Esse olhar costuma ser útil em situações como:
- bebê com alteração no ultrassom;
- criança com infecção urinária febril;
- infecções urinárias recorrentes;
- associação com disfunção miccional e intestinal;
- dúvidas sobre necessidade de seguimento ou tratamento ¹ ⁴ ⁵.
Para pediatras, nefrologistas pediátricos e outros colegas que acompanham crianças, o suporte do uropediatra pode contribuir na estratificação de risco, na interpretação mais contextualizada da UCGM, na definição do seguimento e, quando necessário, na avaliação de possíveis indicações de tratamento intervencionista.
Quando buscar ajuda médica sobre qual exame detecta o refluxo vesicoureteral?
Quando a criança apresenta infecção urinária com febre, episódios recorrentes de infecção urinária, alterações no ultrassom ou sintomas urinários persistentes, vale considerar uma avaliação especializada.
No refluxo vesicoureteral, o diagnóstico costuma depender menos de uma lógica padronizada para todos e mais da escolha do exame adequado, no momento certo, para a criança certa ¹ ³.
Com um acompanhamento individualizado, mais do que saber qual exame detecta o refluxo vesicoureteral é possível esclarecer dúvidas, reduzir incertezas e proteger a saúde urinária e renal da criança com mais tranquilidade.
Para a família, isso faz diferença porque traz direção. Para os colegas que acompanham esses pacientes, favorece uma condução mais precisa, compartilhada e centrada nas necessidades de cada caso.
Por isso, se deseja mais clareza sobre a saúde do seu filho e acompanhamento preciso nessa jornada, entre em contato com a Dra. Marilyse Fernandes e receba apoio especializado.
FAQ
Refluxo vesicoureteral é grave?
Pode ser leve ou mais importante. A gravidade depende do grau do refluxo, da presença de infecção urinária febril, da repercussão renal e da associação com disfunção miccional e intestinal ¹ ⁴.
Refluxo urinário em bebê tem cura?
Muitos casos melhoram espontaneamente com o crescimento, especialmente os de menor grau. Outros exigem seguimento mais próximo e, em alguns cenários, tratamento cirúrgico ou medicamentoso ¹ ⁴.
O refluxo urinário causa dor na criança?
Nem sempre. Muitas crianças não têm dor específica por causa do refluxo. O quadro costuma chamar atenção mais pelas infecções urinárias, pela febre ou por alterações em exames ² ⁴.
Qual ultrassom detecta problemas na bexiga?
O ultrassom de rins e vias urinárias pode mostrar sinais indiretos no trato urinário, inclusive na bexiga, mas não confirma sozinho o refluxo vesicoureteral ² ³.
Quais os sintomas de refluxo da urina?
Os cenários mais comuns são infecção urinária febril, infecção urinária de repetição e alterações no ultrassom. Em crianças maiores, sintomas urinários e constipação também podem estar associados ¹ ⁴ ⁵.
Como é a cirurgia para refluxo vesicoureteral?
Depende do caso. Existem opções endoscópicas e cirúrgicas, como o reimplante ureteral. A indicação é individualizada e costuma ser reservada para situações específicas, como infecções febris recorrentes, refluxo persistente relevante ou falha do tratamento conservador ¹ ⁴.
O que causa o refluxo da urina para o epidídimo?
Esse não é o mecanismo típico do refluxo vesicoureteral. Quando essa dúvida aparece, é importante reavaliar se o quadro pode estar relacionado a outra condição do trato geniturinário, com análise individualizada.
A ultrassonografia é suficiente para diagnosticar o refluxo?
Não. Ela é muito importante na avaliação inicial, mas a uretrocistografia miccional continua sendo o principal exame para confirmar e graduar o refluxo ¹ ³.
A uretrocistografia é um exame seguro?
Sim, quando bem indicada e realizada por equipe experiente. Como envolve sonda e radiação, não é um exame banal, mas costuma ser seguro e muito útil nos casos certos ² ³.
Todo refluxo precisa de tratamento?
Não. Muitos casos exigem acompanhamento, controle de infecções e tratamento da disfunção vesical e intestinal quando ela existe. A decisão depende do risco individual de cada criança ¹ ⁴ ⁵.
Referências
¹: Gnech M, Frontino G, Silva JM, et al. Update and Summary of the European Association of Urology/European Society for Paediatric Urology Paediatric Guidelines on Vesicoureteral Reflux in Children. European Urology. 2024;85(5):433-442. doi:10.1016/j.eururo.2023.12.005. PubMed: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38182493/
²: Cajigas-Loyola SC, Chow JS, Hayatghaibi S, et al. Imaging of Vesicoureteral Reflux: AJR Expert Panel Narrative Review. AJR American Journal of Roentgenology. 2024;222(6):e2329741. doi:10.2214/AJR.23.29741. PubMed: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37672329/
³: Marzuillo P, Di Sessa A, Tirelli P, et al. Voiding cystourethrography for the pediatric nephrologist: clinical value, challenges, and areas of debate. Pediatric Nephrology. 2025. DOI:10.1007/s00467-025-06901-3. Fonte: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40924183/
⁴: Puri P, Friedmacher F, Farrugia MK, Sharma S, Esposito C, Mattoo TK. Primary vesicoureteral reflux. Nature Reviews Disease Primers. 2024;10(1):75. doi:10.1038/s41572-024-00560-8. PubMed: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39389958/
⁵: Hari P, Meena J, Kumar M, et al. Evidence-based clinical practice guideline for management of urinary tract infection and primary vesicoureteric reflux. Pediatric Nephrology. 2024;39(5):1639-1668. doi:10.1007/s00467-023-06173-9. PubMed: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37897526/
⁶: Saha A, Alperstein D. Urinary Tract Infections in Children. Pediatrics in Review. 2024;45(5):260-275. American Academy of Pediatrics. Fonte: https://publications.aap.org/pediatricsinreview/article/45/5/260/197101/Urinary-Tract-Infections-in-Children







